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Autobiografia ou a história de um crime premeditado


Há muitos anos matei uma mulher. Às vezes sinto que ela me vigia. Especialmente quando falo de mim. Decidi escrever-lhe esta carta. Não tenho outra maneira de lhe dizer que a amei muito. E ainda amo.

Minha querida,
Não quero ser cruel mas a verdade é que quase ninguém se apercebeu da tua morte. Sei que te interessa este assunto. Sempre foste curiosa e levavas muito a sério os afectos e a lealdade. Os familiares mais próximos sentiram a tua falta mas não por muito tempo. Fiz o que pude para que te esquecessem depressa. Aconteceu o mesmo com os amigos. Nunca tiveste muitos. Há poucas pessoas com as qualidades suficientes para serem amigos. É melhor continuarmos sem nos enganarmos acerca disso.
Tive mesmo de te matar. Nunca imaginei que iria ter saudades tuas nem que me lembraria de ti tantas vezes. Não estou a pedir-te desculpa. Fiz o que tinha de fazer. Tentei explicar-te que não podíamos continuar a coexistir mas tu sorrias com aquela condescendência que tanto me irritava. Nunca gostei de pessoas condescendentes.
Eras a preferida dos pais. Estavam convencidos de que serias bem sucedida. Sucesso para os pais queria dizer um emprego e uma família. A hipoteca da casa paga ao fim de trinta anos. Uma casa de férias. Um carro. Reforma e netos. E as pequenas coisas. Como a tarte de pêra que inventaste e que a mãe ainda faz. A mãe, a nossa mãe, envelheceu mas continua bonita. O pai já morreu. Foi há oito anos e ainda não sei o que fazer da sua ausência. Os pais foram os que mais sentiram a tua morte. Permitias-lhes o descanso.
Quando falavas da nossa infância dizias que tinha ficado perdida noutro continente. Mas não há infância que não seja um continente perdido. A infância passada em África não é assim tão relevante. Nem o facto do fim da infância ter coincidido com uma revolução. Com uma guerra. Com a ponte aérea. A História sempre interferiu com milhões de histórias. Umas contam-se outras ficam por contar. Não é sempre assim?
O retorno foi um entre muitos episódios. Não sei a partir de que altura comecei a dividir a vida em episódios. Agora gosto de séries televisivas. E continuo a gostar muito de filmes. Aqui nunca houve cinemas ao ar livre. Não desisto de tentar distribuir harmoniosamente os picos dramáticos pela minha vida. Mas há sempre tempos errados. Se fosse a única guionista da minha vida seria diferente. Ou talvez não.
Já eras advogada quando conhecemos o homem que te disse que estudavas as leis dos homens enquanto ele estudava a Física e as leis de Deus. A linguagem matemática sempre te esteve vedada. Quase todas as linguagens. A música. A pintura. O canto. A dança. A mim também. O único mistério de que me parece possível abeirar-me é o das palavras. Foi esse homem que me ajudou a tomar a decisão de te matar. Desde aí temos sido cúmplices em tudo.
Nunca fomos parecidas mas também não éramos opostas. Poderíamos ter-nos complementado se não se desse o caso de partilharmos o mesmo corpo. Dispúnhamos apenas de um corpo, este que agora é só meu. Nunca deixámos de guerrear na nossa existência intermitente. A vitória de uma seria a derrota da outra. Quando uma de nós matasse a outra cometeria um crime perfeito. Um assassínio sem cadáver. Eras mais capaz nas coisas do mundo. Pensava que serias tu a acabar comigo. Mas não.
Escrevo-te do local do crime. Do sítio das palavras.
Mas estou a misturar tudo e tu gostas de tudo ordenado. Arrumado. A minha casa é desarrumada. Quando alguém me visita de surpresa envergonho-me e lembro-me de ti. Ou quando perco as facturas que preciso de pagar. Exaspero-me e prometo ser mais organizada. Falho sempre. Continuo a trocar os dias com as noites. Tu ficavas triste quando perdias as manhãs de sol. Eu deito-me muitas vezes ao amanhecer.
Tinhas medo de andar de comboio sem pagar o bilhete, de roubar pastilhas elásticas no supermercado. Não concordavas quando eu o fazia. Os meus medos eram mais sérios. De fantasmas. Do amargor dos velhos. Da impiedade dos novos. Já não consigo roubar chocolates. Primeiro aceitei fazer a coisa certa e mais tarde escolhi. Sim, decidi fazer a coisa certa. Espero não me ter tornado tão irritante como tu eras. Não é por te ter matado que vou deixar de ser sincera contigo.
O mar ficava tão perto do liceu. Não era tão bonito como o mar de Luanda mas era mais bonito do que qualquer ensinamento. Nunca me convenceste da utilidade de aprender os nomes das linhas de caminho de ferro, de se inventarem árvores com sintagmas verbais e nominais, da maior parte das coisas que fomos obrigadas a aprender nas aulas. O mar esteve sempre ali tão perto. Reprovei um ano por faltas. Tu sempre foste uma das melhores alunas.
Um dia quiseste partir num cruzeiro como empregada de mesa. Tenho a certeza de que nunca acreditaste nisso. Acreditavas na ideia de fugir. Eu tentei. Não consegui. Ainda não gosto de viajar mas decoro os destinos das letras luminosas dos aeroportos. Quando posso demoro-me noutros sítios. Pertenço a um sítio quando já sei onde comprar o pão de que gosto mais.
A primeira vez que me ouviste dizer que queria ser escritora sorriste condescendente. Nunca escreveste um diário - atiraste como prova do meu devaneio -, e quando o rapaz do cabelo louro convidou outra rapariga para ir à festa não escreveste poemas, choraste. Pois foi. Nunca escrevi um verso na vida.
Mas inscrevi-me na escola de dactilografia “O meu futuro”. Desperdiçámos um verão, o dos catorze anos, a treinar os dedos, que a cabeça vai-a treinando a vida. Por causa de “O meu futuro” raramente olho para o teclado quando escrevo. Uso sempre o mesmo tipo de letra e o mesmo tamanho. Não gosto de escrever à mão. Não guardo inéditos. Faço fogueiras. As palavras ardem como outra coisa qualquer.
Para escrever só preciso de ter as mãos limpas. E de um café. Enquanto escrevo não fumo mas nos intervalos vou ao pátio fumar. Há mais de quinze prédios à volta do pátio. Centenas de janelas. Espreito para as casas dos vizinhos. Escrever é espreitar outras vidas. Contar mentiras e acreditar que isso é bom.
Não me quero gabar mas é preciso coragem para matar alguém a quem conhecemos os sonhos. Tu só precisaste de morrer. Mais uma vez ficaste com a parte mais fácil.
Achei que podia realizar alguns dos teus sonhos mas depois da tua morte ainda me afastei mais do que tu foste. Desisti de ser advogada. Nunca quis ter filhos. Não gosta de crianças, perguntam-me de vez em quando. Não sei, as crianças duram tão pouco, respondo. Dura quase tudo tão pouco. Persigo o que possa perdurar.
Também deves estar curiosa acerca do que escrevo. Infelizmente não te posso ser útil. Não sei falar dos meus romances. Conto-te uma história: há uns anos encontrei num hospital psiquiátrico um doente que me disse: tudo o que não vivi, li. Confesso que gostaria muito de ter inventado aquele homem louco. De ter sido eu a escrever aquela frase. Mas o homem louco não era mentira nenhuma. Existia mesmo, dolorosamente em carne e osso, repetindo aquela frase numa tarde acobreada de Outono. Tudo o que não vivi, li.
Já não leio tanto. Deixei de ir às bibliotecas requisitar os livros das lombadas mais grossas. Mas continuo a gostar de histórias como quando aprendemos a ler sozinhas na semana em que ficámos de cama por causa do sarampo. Quando começou a escola, a que tinha o embondeiro no meio do recreio, já sabíamos ler. Aprendemos para ler as histórias dos livros da Patinha. Sempre tivemos dificuldade em pronunciar as palavras e ainda leio mal em voz alta. Patinha era como pronunciávamos Fatinha. Agora, nas horas livres, a minha irmã Patinha entretém-se a fazer gorros de lã. Oferece-me alguns. Ainda chegaste a conhecer o filho dela. Cresceu. Fez vinte e sete anos em Outubro. No ano passado visitámos o deserto. Fizemos um piquenique de que não tenho fotografias. O Paulo não estava lá. A máquina do Paulo guarda quase todos os instantâneos das nossas vidas.
Tenho saudades do pai.
Quando éramos pequenas gostávamos tanto de o ver fumar, lembras-te? O que queres ser quando fores grande, perguntaram-nos numa festa de família. Acho que tínhamos seis anos. Fumadora, respondi. Riram-se e disseram, isso não é profissão. Uns dez anos mais tarde perguntaram-nos outra vez noutra festa, o que queres ser. Escritora, respondi. Isso não é profissão, disseram. Mas já não se riram. Tu também não achaste piada.
Custa-me tanto não saber nada de ti. Mas o que te queria mesmo dizer é que espero, um dia, ter a casa grande com que sonhavas e de nela reunir-me com o que tu foste. Então acordarás no quarto luminoso virado a sul para as tuas manhãs doces e tranquilas. E eu poderei finalmente adormecer em paz.

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