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Raízes - Lourenço Pereira Coutinho


E Ofereci-te Flores...

2010-07-05 00:00:00

E Ofereci-te Flores...

Ela estava sentada sobre chão de terra, olhando lá para baixo, um fundo de mil tons azuis e verdes e pequenos pontos brancos com telhados escuros que pareciam girar. Tínhamos vertigens.

Nada dizia, apenas um sorriso sereno de cada vez que o vento lhe despenteava os cabelos.

E ouvíamos o mar, olhávamos o horizonte, agradecendo o lugar.

As nuvens espalhavam-se na imensidão do ar. Umas esfumavam-se, outras avançavam juntas para onde só elas sabiam. Dominavam os céus, e guardavam segredo do destino. Era a sua força: em conjunto e em silêncio, pelo mesmo caminho. Todos precisam de alguém.

- Hoje apetece-me viver. – Disse ela sem tirar os olhos das nuvens.

Levantei-me e sacudi as calças, livrando-as da caruma. Ela arrancou duas flores, banais malmequeres, e estendeu um para mim.

- Estás a oferecer-me?

Ela confirmou-o com o olhar.

- Os homens não recebem flores…

- Só os que merecem. - E abriu a minha mão, onde poisou o malmequer sem me olhar. – Faz por merecê-las. – Pediu, enquanto fechava a minha mão com força.

Guardei-o no bolso. Sentei-me na vespa enquanto ela prendia o outro malmequer aos cabelos. Avançámos devagar, ziguezagueando rumo ao mar.

Ela fechou os olhos e respirou fundo, e o malmequer desprendeu-se dos seus cabelos, perdendo-se no meio do nada.


Ficámos até ser noite. Sentados em cadeiras de madeira no bar do fundo, observando em silêncio, sorrindo de forma cúmplice, algumas vezes a despropósito.

- Podes ficar com as amêijoas todas.

- Porque as pediste então?

- Gosto do molho. E nunca encontrei nenhum sítio que servisse amêijoas à Bulhão Pato sem amêijoas. – Respondi, enquanto limpava as mãos à toalha de pano estampada de quadrados verdes.

O empregado, de lacinho preto, camisa branca de manga curta feita de polyester, e calças pretas a pedir reforma, poisou duas imperiais à nossa frente.

Não percebi porque ele parecia feliz, vestido daquela maneira, suando ao sol enquanto transportava robalos ao sal e gambas cozidas para outros comerem.

- E não tinhas Carlsberg? – Perguntei-lhe sem modos.

- Peço desculpa senhor, acabou-se ontem.

- Porque vocês não são previdentes. Em pleno Agosto, está de ver que a boa cerveja acaba…

- E tu não gostas de imperial Super Bock? – Interrogou ela, depois de um golo largo na cerveja, e enquanto limpava com a língua o pequeno bigode branco feito de espuma.

- A Carlsberg liga melhor com as amêijoas. E vem da Dinamarca, e é mais leve, e mais fresca…

Já tinha desviado a cara, concentrando-se novamente nos movimentos das pessoas. Senti-me parvo.

Estiquei as pernas, que apoiei num pequeno banco, e cruzei os braços. Tirei o malmequer do bolso do casaco e comecei a desfazê-lo, sussurrando a ladainha.

- Encontrei-a, era a última! Estava lá no fundo, misturada com as garrafas de Sumol. Confundem-se, sabe? São da mesma cor.

O criado voltara. Trazia boas notícias e continuava feliz. Poisou a Carlsberg junto ao meu prato de molho à Bulhão Pato. Eu atirei o malmequer para a estrada, ainda com pétalas por tirar e respostas para dar.

Agarrei a garrafa verde e virei-a num piscar de olhos. Nada mais poderia querer daquele dia.

- Vamos embora? – Perguntou-me ela.

- Agora?

- Sinto-me cansada…

- Conversas. Porque não jantamos aqui?

- Eu vou-me embora.

Levantei-me contrariado e partimos. Já estava escuro mas eu não acendi as luzes da vespa. Avançámos pelo anoitecer, desafiando a sorte.


Os dias seguiram-se. Começou a chover e a fazer frio. As folhas caídas das árvores rodopiavam, numa dança monótona e tristonha de reflexos acastanhados. O nevoeiro instalara-se pela serrania e o mar deixara de se ver. O ar cheirava a lume de azinho. Era quase sempre noite.

- Vamos ver as luzes de Natal?

- Não me apetece, sinto-me cansada.

Encolhi os ombros, não percebia.

E ela adormeceu agarrada às almofadas da sala. Não sabia que não gostava que se agarrassem às almofadas da sala?


Continuou enfraquecida e sonolenta. Não parava de tossir. O médico disse-lhe para fazer testes, rotina apenas. E ela lá foi, achando aquilo tudo uma tontice. Sentia-se apenas com vontade de fechar os olhos, e de dormir sem acordar.

Passou essa tarde no hospital a observar mil gráficos e luzinhas a piscar num aparelho sofisticado. Voltou lá passados três dias, para confirmações. Deu de caras com o mesmo aparelho mudo, que voltou a mostrar as mesmas cores e as mesmas luzes a acender e apagar.

Chegou tarde a casa. Vinha serena, bocejando, e adormeceu sem jantar.


Um dia fez-se sol. Fui para a rua embrulhado numa samarra e consegui olhar o mar. Acenei-lhe, depois dei de caras com as árvores de ramos despidos de folhas. Olhei em volta e não encontrei malmequeres.

O carteiro chegou de bicicleta. Vinha ofegante depois da subida.

- O que me dava jeito era uma vespa… – Repetia de cada vez que nos visitava. Coçava a cabeça e namorava a minha mota.

- O que te trás cá a cima?

- Vim entregar esta carta. É registada.

O homem que entrega cartas voltou para baixo de mãos a abanar, pedalando tristonho a sua velha pasteleira.

Abri a carta junto à lareira e li o resultado sentenciado pela máquina das mil luzes e gráficos.

Respirei fundo e voltei ao jardim. Olhei lá para baixo, para o fundo de mil tons azuis e verdes e pequenos pontos brancos com telhados escuros que pareciam girar. Tive vertigens e chorei em silêncio.


Ela acordou com inesperada alegria. Os seus olhos brilhavam e tossia um pouco. Procurava-me e eu escondia-me, disfarçava.

- Passou-se alguma coisa?

- Coisas do trabalho.

- Porque não te reformas?

- Com cinquenta anos?

- Ou então porque não largas tudo? Não precisas de os aturar para viver…

- E depois, como podíamos ir comer as amêijoas? E beber uma Carlsberg? E pôr gasolina na vespa, para passearmos…

- Ofereciam-nos. O tipo do bar da praia é teu amigo. Não aguentaria a tua ausência. Tem de falar sobre o Benfica…

- E como chegávamos lá?

- Trocavas a vespa pela bicicleta do carteiro.

Os olhos dela brilhavam. Poucas das elaboradas confusões humanas faziam-lhe sentido.

Saberia ela o que se passava? Talvez… mas mantinha-se embrulhada numa tranquilidade perturbadora.

Eu não. Passei a ter dúvidas, interrogações violentas. Andava desinquieto. Revoltei-me, perdi as esperanças. Deixei de viver tudo o resto.

Porquê ela?


Tudo se passou a alta velocidade, coisa a que não estávamos habituados. Ela manteve-se serena. Sorria de quando em vez, e chorava lágrimas soltas, que procurava esconder.

E dormia, dormia, a respiração cada vez mais espaçada. Suportava as dores sem falar nelas, e o destino, incompreensível, sem o contestar.

Vivia de recordações de momentos de felicidade. Sumia-se com um sorriso tímido e luminoso, tal como viveu.

Estranhamente, parecia feliz, por certo em paz.


Ela partiu ao fim de pouco tempo, nem houve como lutar.

Olhei para ela uma última vez, estava já inerte, a cara muito branca e os cabelos penteados.

Despedi-me e ofereci-lhe flores, deixei-as entre as mãos. Nunca o fiz enquanto vivia. Que tolos são os tímidos…


As recordações dela dançam agora sobre mim, num fundo de mil tons azuis e verdes e pequenos pontos brancos com telhados escuros.

Porquê assim? Porque a vida não e justa, nem previsível, e está presa por um fio? Não sei…


E a ausência de respostas causa-me vertigens.

Faz-me ter medo de sonhar, mas também me obriga a viver. Para merecer as flores que um dia ela me ofereceu.



Janeiro de 2009

lourenco.pc@sapo.pt

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