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Raízes - Lídia Jorge


A HISTÓRIA NA PRAÇA AZUL

2017-04-03

 

Silêncio, vem ter comigo.
Torna-me tua rainha.
Escrito nos muros de Lisboa.

Sou uma pessoa simples. As coisas começaram a ficar estranhas aí pelos meados de dois mil e nove, e foram-se complicando, complicando, até que uma boa tarde, a Senhora do FMI declarou a partir de Bruxelas que tínhamos de ter paciência. E ilustrou as razões, todas elas de natureza numerária, com um pensamento filosófico algo subtil. Disse a Senhora - Eu costumo dizer que sempre que a maré baixa, inevitavelmente, os despidos aparecem nus. E depois sorriu, não demasiado mas o suficiente para se perceber que se movimentava à vontade no domínio da paremiologia.

Por mim, que não sou da História, nem da Filosofia, que escrevo empoleirada nas árvores da praça, estou em crer que foi essa frase que desencadeou o que a seguir se passou, e não a revolta dos sindicatos e outras agremiações similares. Na Praça de Espanha existe um grande écran noticioso, e a Senhora do FMI ficou por ali, durante três dias, a pronunciar a sentença, entre sorriso piedoso e supremacia moral, ficou a repetir a asserção, de permeio com outras notícias correntes, um avião desviado, uma prostituta agredida, um polícia que desviava armas do arsenal, o ridículo preço da batata, uma cena de pancadaria num parlamento longínquo, mas no meio de todo essa suave urdidora da actualidade corrente, era a frase da Senhora que funcionava como refrão, repetindo-se sem cessar no alto da praça, separando as árvores dos edifícios. A imagem ia e vinha, e a Senhora sempre a falar do mesmo assunto – Eu costumo dizer que sempre que a maré baixa, inevitavelmente, os despidos aparecem nus.

Pelos meus cálculos, uma vez que ali fiquei empoleirada a observar, creio que a imagem terá sido lida em legenda por cerca de meio milhão de pessoas, e essas terão passado o recado a mais de milhão e meio, e imaginando que a sentença foi difundida na rádio, e que a imagem viva completa tenha passado nos canais generalistas, estou convencida que ao fim daqueles três dias, dos dez milhões que somos, ninguém terá deixado de ficar informado sobre o assunto em causa. Ideias claras – A maré estava a baixar, e nós, afinal, sempre tínhamos andado indevidamente disfarçados sob a água que nos encobria o corpo. A água lustral que pertencia aos outros. Essa situação, porém, em breve iriam mudar, estando todos nós em risco de surgirmos despidos, diante do mundo, tal como merecíamos. Pois o que tínhamos feito nós por nós próprios, para nos vestirmos a nós mesmos? Era a linguagem florida da Senhora do FMI para dizer que uma onda de miséria vinha a caminho. O anúncio tinha sido claro.

Mas nunca se sabe quando um raciocínio paremiológico de semelhante natureza não desencadeia aquela mistura de sentimentos entre surpresa, medo, ultraje, fúria, e até ódio, que se designa por revolta íntima, e não impele o movimento que conduz à acção. Muito perigoso, o movimento interior que conduz à acção. Pois só Deus sabe o que dez milhões de pessoas sonham em conjunto durante a noite, quando se sentem injustiçadas. Cavalos do Apocalipse correm e relincham dentro de cabeças que parecem adormecidas, mas não estão. Como a Senhora do FMI se encontrava muito longe, e andava sempre a voar daqui para ali, absolutamente inalcançável, sonhavam alcançá-la, montados nesses cavalos, para lhe dizerem cara a cara que não só se encontram bem vestidos como estavam bem armados. E então, na primeira oportunidade, a propósito de umas contas correntes quaisquer, que ameaçavam desmuniciar ainda mais a população, certo dia de Setembro, os cidadãos começaram a concentrar-se na praça, e foi bonito de se ver.

Trezentos mil, diziam uns, quinhentos mil, escreveram outros, e os mais optimistas, tendo em conta as artérias próximas, completamente invadidas, artérias que entretanto foram filmadas a partir de helicópteros vários, rios de gente fluindo, acabaram por dizer que a manifestação atingira um milhão. Assim foi. Se não corresponde à verdade numérica, corresponde à verdade poética, a mais fiel de todas as verdades. E a multidão, como se sabe, é uma entidade inexplicável. A multidão não é só o somatório dos seus elementos, é algo misterioso que transforma um grupo humano num gigantesco animal evanescente, pós-histórico, pulsando ao ritmo do coração de um animal pré-histórico. Assim foi. Tanta gente reunida na praça, juntando-se, movimentando-se, caminhando corpo e a corpo, lado a lado, e tudo para dizer em voz alta que não estava nua, nunca ficaria nua, e se acaso lhe provocassem a nudez, haveriam de ver do que seria capaz cada um e todos em conjunto. Se continuassem a provocá-los, estariam dispostos a passar das palavras aos actos. Mas o que ocorreu a seguir, não só surpreendeu os próprios como se transformou num digno case study, como dizem os portugueses, sempre que um assunto se torna sério demais.

Pois naquela tarde não se incendiou viatura nenhuma, não foram gritados impropérios, não se partiram montras, nem se apedrejaram os polícias. Pelo contrário, os manifestantes, desembocados das vias adjacentes, estavam enfeitados de flores, empunhavam rosas e cravos, outros transportavam crianças ao colo, levaram velhos em cadeiras de rodas, distribuíram sanduíches, entoaram canções muito antigas, versos com azinheiras sem idade e pombas mansas voando, e as raparigas, surpreendendo os polícias hirtos, nas suas fardas azuis, aproximaram-se deles, abraçaram-nos e puseram-lhes beijos nas faces, beijos que foram filmados e enviados de imediato para tudo o que foi aparelho receptor à volta do Mundo. Assim mesmo. Tudo isso para que a Senhora do FMI pudesse ver como se batiam por um futuro limpo, as pessoas em Portugal.

Que não houvesse dúvidas.

Os correspondentes dos jornais estrangeiros em Lisboa ficaram sensibilizados. Nunca tinham visto uma gente assim. O The Guardian escreveu que por aqui, em Portugal, como em mais nenhuma parte do mundo, as pessoas protestavam ao som de canções e com molhos de flores nos braços. O The New York Times fez mais. Cruzou a Praça de Espanha onde decorria a manifestação, com o Terreiro do Paço, misturou a cor do céu de Lisboa daquela tarde com a cor do Tejo, encantador, e chamou ao local de Praça Azul. E os jornalistas por certo que falam uns com os outros, pelo menos de vez em quando. A prova é que o El País tomou as duas praças sobrepostas pelo The York Times como metáfora do país inteiro, e publicou uma linda legenda sob uma fotografia de gente feliz, com os braços no ar a agradecer, e explicou aos Estados Unidos da América que Portugal, naquela tarde , todo ele se tinha transformado numa praça azul. Pura réplica de uma grande alegria acontecida a propósito de uma revolução com cravos, nos idos tempos de setenta e quatro. Uma festa imensa que se repetia. Contentes, felizes, vestidos de Outono estival, os manifestantes regressaram a casa, nesse sábado, com a ideia de que tinham vencido um difícil combate. Tinham vencido a inalcançável Senhora do FMI. Portugueses, gente pacífica, maravilhosa, nem gregos, nem polacos. Escreviam os jornais.

Mas nem tudo foi assim, cantante e florido.

A multidão, como a palavra diz, é um corpo múltiplo. Caída a noite sobre Lisboa, cada manifestante regressou a casa e foi deitar-se na sua cama, e cada um tinha a sua mesa, a sua cozinha, a sua caixa de correio, cada um possuía o seu endereço electrónico, o seu número de identificação bancária, o seu número de telemóvel, e então, na semana seguinte, cada um recebeu notas de pagamento, notas de dívida, notas de cobrança, notas de cancelamento de serviços, avisos de juros de mora, de impostos, ameaças de senhorios, de bancos, de débitos devidos, de multas que tinham anos, e agora surgiam como por encanto para pagamento compulsivo. Notas de despejo das próprias casas. Para agora e já. O que se passava? Alguns, ainda pensaram regressar à praça onde tinham dado e recebido energia, invencíveis, mas o recinto continuava lá, aberto ao trânsito, e todos passavam a correr, de olhos em frente, cada um envolvido na sua preocupação, a pensar nos seus horários dilatados, nos salários encolhidos, nas dívidas surpresa, acumuladas, e nem olhavam para os semáforos. Porque a maré baixa surgia de forma colectiva, mas o efeito era vivido em privado. Cada um sentiu vergonha de falar de si mesmo. Cada um ficou sozinho, incapaz de publicitar o que lhe acontecia. Por vezes, cada um lembrava-se da frase da Senhora do FMI, apalpava-se, e em vez de se sentir inviolável e vestido, como no dia da Praça, chamada de Azul pelo correspondente do The New York Times, pelo contrário, sentia-se nu. A comédia tinha sido colectiva e festiva, a tragédia passara a ser individual e secreta. Intransmissível. Tudo aconteceu assim.

Em silêncio, ao longo de três anos, os mais jovens galgaram os aeroportos do país e emigraram sem dizer adeus. Os velhos partiram para asilos ou para debaixo do chão. As crianças começaram a chegar mais cedo à escola para beberem o leite que em casa tinham deixado de ter. Em prédios de dez andares, três, quatro fogos, foram tomados pelos bancos credores. Os proprietários abalavam de casa, de madrugada, e não voltavam mais. Ninguém dava por nada. Apenas se sabia que já lá não morava ninguém, porque a correspondência se acumulava nas caixas do correio até transbordar. As cartas andavam pelo chão. Por vezes, dava-se falta dos antigos proprietários, só porque se tinha deixado de ouvir o ladrar do seu cão. Houve quem tivesse deixado o carro parado à porta e os funcionários do stand onde se deviam meia dúzia de prestações, recolhia-o com a delicadeza de quem empurra o caixotão do lixo. Houve quem procurasse os carris do metro como último remédio para a vida. Houve quem saísse do automóvel no cimo da Ponte 25 de Abril e se atirasse ao rio. Houve quem abrisse os pulsos dentro da água morna da banheira, boiando num lençol vermelho. Houve quem vendesse a honra, quem se prostituísse, quem matasse, e quem morresse sem dizer uma palavra. Venderam-se cordas à medida dos pescoços. Muitos outros, pelo contrário, enlouqueceram, o que aconteceu de forma mansa, sem grande alarido, loucura pasma, chamavam-lhes os antigos. Os directores dos jornais combinaram não publicitar suicídios, pelo efeito da instigação exponencial. Instigar a semelhantes acções, seria intolerável. E, curiosamente, as baladas que tinham acompanhado a revolução, quarenta anos antes, de súbito, pareceram melodias líricas desadequadas, provocando raiva, e em vez delas, numa subversão de territórios mentais, como acontece nas camadas da Terra, surgiram, como fantasmas, palavras muito mais antigas, agora ressuscitadas, como se fossem orações modernas. Meu filho, se fores pequeno, serás grande, se te submeteres, serás livre. Deixa que a justiça será feita lá, muito depois. De onde provinham estas palavras?

Era o medo que as ressuscitava, o medo antigo, o que fizera os indivíduos e as pessoas afásicas, e agora em face da nova derrota, recriavam uma nova antiga ordem e voltavam a ser adequadas. Explicavam o lugar em que cada um se encontrava. Não se falava do assunto em voz alta, mas cada um ia ouvindo, proveniente dos anos trinta do século XX, as palavras do velho ditador, Salazar, palavras mansas, capturando a vontade, como uma teia de aranha que se estende sobre a mosca que existe no fundo das almas. De onde chegava aquilo que se ouvia dentro do peito? Tão sereno, tão adequado? Sob o efeito da penúria, a vozita trémula do ditador falava à orelha de todos, mesmo daqueles que haviam nascido muito depois de ele ter caído de uma cadeira. Que coisa estranha se ressuscitava – “Portugueses! Não discutimos Deus e a virtude, não discutimos a Pátria e a sua História, não discutimos a autoridade e o seu prestígio, não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Não discutimos…”

Não discutimos.

Aceitámos.

De vez em quando, os jornais davam escape ao assunto, e surgiram afoitas reportagens sobre os estados de alma dos fracos, os que iam ficando pelo caminho. E, de entre os sobreviventes, poucos quiseram mostrar como sobejara o seu rosto de vencidos. Antes, pensavam com despeito na tarde passada na Praça Azul, com gritos de alegria de venceremos, venceremos. Pois vencer tinha significado capitular para sobreviver de qualquer jeito. Todos estavam dez anos mais velhos. Entretanto, quando os súbditos da Senhora do FMI fizeram o balanço, e todos perceberam de que forma a maré baixa não havia sido uma maré baixa, mas antes um esvaziamento antecipado, premeditado, conluiado e calculado, era tarde de mais para uma geração inteira. A Senhora do FMI deixou de falar em termos paremiológicos, aliás, deixou de falar de Portugal , e ninguém pediu desculpa pelo engano, pelo logro, pela locupletação que o sacrifício de tantos permitiu a tão poucos. Os tribunais puseram-se a brincar aos processos, alongaram-nos até se transformarem em novelos incontroláveis, e alguém disse, mas não foi a Senhora do FMI, foi outro administrador de tragédias conjunturais, que os indivíduos devem ser educados, desde crianças, para enfrentarem a injustiça, e estarem preparados para o inesperado. Simplesmente porque, na História Mundial, há fases.

Continuo pousada no galhozito de uma árvore.

Obrigada.

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