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Raízes - João de Melo


Extracto de «AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS», de João de Melo

2017-03-01

No dia em que eu morri na guerra, estava este mesmo sol de cloro, parado e exangue nas minhas veias. O mundo parecia envenenado pelo cianeto. Tal como agora, as aves debandavam para o Sul, depois de sobrevoarem a paisagem do Norte, e pude reparar que o corpo delas se cobrira de uma cor de leite coalhado como o Inverno. Sei que estou perfeitamente morto, ou tanto quanto o possa estar um homem vencido pelas armas de guerra. Digam o que disserem, nada ainda se alterou desde esse dia: continua em mim a terrível e abismada destilação das horas, na viagem para o Norte. Os pássaros voam na sua nata envenenada. Sentado a meu lado, no banco corrido do Unimog, o Lamas acabou por adormecer. De vez em quando, a cabeça a baloiçar ao sabor das oscilações da viatura, vem pousar-me no ombro. O corpo ensonado parece um volume sem ossos, ao qual os solavancos transmitem a flutuação dos eixos sobre os relevos do terreno que vão percorrendo. Os outros fumam em sossego. Eram de facto amigos: passavam os mesmos cigarros de mão em mão, em silêncio, sem precisarem de falar. Esse mesmo me calou a mim para sempre, fechando atrás de si todos os sons e ruídos e repondo a ausência total do mundo dentro dos meus ouvidos. Desse dia da minha morte, começarei por recordar a poeira. Vinha de frente, em nuvens que se levantavam na picada à passagem das viaturas e que se enrolavam no ar, erguidas pelo vento que corria para trás, rumando portanto ao contrário do nosso caminho. Passavam aves sobre nós, na travessia da manhã, possivelmente a caminho do Sul, como se desertassem da nossa guerra. Nem os pássaros, nem a poeira da picada, nem os silvos do vento no ar, e tão-pouco o sol de cloro do Norte, queriam assistir à minha morte. O mormaço entrara profundamente em mim, o que acabou por amolecer o meu corpo e adormecê-lo ao som do motor, das pancadas dos eixos, dos pios das aves que debandavam para longe.

Extracto de "AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS", de JOÃO DE MELO, 9ª. edição reescrita, recém-publicada 

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