Loading...

Raízes - Carlos Barroco Esperança


Ano Novo

2017-01-11

Sob os escombros do ano que ora finda jazem os votos que formulámos no início. Onde se encontram a almejada paz, o amor jurado, a fraternidade anunciada? Pelo contrário, irromperam das trevas da intolerância fundamentalismos torpes e ódios obscenos.

Por todo o mundo lambem-se feridas de catástrofes naturais e conflitos provocados. A explosão demográfica, a pobreza e a guerra deram as mãos à intolerância e à vingança. O racismo e a xenofobia atingiram proporções dementes que terminaram na orgia de sangue em que os homens se atolaram. Foram frágeis os desejos e efémeras as expectativas.

Ano Novo, vida nova. Estes são os votos canónicos que fastidiosamente repetimos no dealbar de cada ano. E suplica-se que o Ano Novo seja o paradigma dos nossos sonhos e não a consequência dos nossos atos, ou o fruto de circunstâncias que nos escapam.

Após as doze badaladas e outras tantas passas, após o champanhe e os abraços, por entre beijos húmidos e corpos que se fundem, numa sofreguidão de amor, com o brilho das luzes e o som da música, recomeça um novo ano com votos repetidos de ser diferente e ser melhor.

Os anos nascem ruidosamente e vivem-se em silêncio. Começam com ilusões e acabam em pesadelo.

Há em cada um de nós uma força que nos impele para a mudança, que nos dá ânimo para desbravar novos caminhos e assumir novos riscos, enquanto o conservadorismo e o medo do desconhecido nos tolhem os passos, nos intimidam e levam a recusar a novidade.

Eu acredito que no coração dos homens mora um genuíno desejo de paz. Os mísseis que cruzam os ares, as bombas que perfuram o solo, ou os efeitos colaterais da artilharia que errou o alvo e destruiu povoações inteiras, não são mais que um pesadelo passageiro.

O futuro constrói-se. A felicidade é um estado de alma que devemos procurar e a alegria o caminho a seguir.

É em cada um de nós, no espírito de tolerância, na aceitação da diferença, na solidariedade, que podemos começar a construir o mundo mais justo, fraterno e pacífico para o qual julgávamos bastarem os desejos formulados de olhos fechados na última noite de dezembro.

Que o delírio do amor e a embriaguez do sonho se mantenham vivos durante o ano que aí vem. E que, por entre nuvens que pairam carregadas de incerteza, resplandeça o sol da esperança e a nossa vida decorra tranquila.

 


Feliz 2007.

Jornal do Fundão – 28-12-2006

Carlos Barroco Esperança

In Ponte Europa, 2016, Âncora Editora.

 

Mais raízes

Voltar

Top 10 de vendas

Novidades

Questão

Qual a secção do Portal da Literatura de que mais gosta?

Livros 44.17 %
Poesia 17.79 %
Também Escrevo 14.11 %
Escritores 11.66 %
Pensamentos 4.29 %
Adivinhas 2.45 %
Editoras 2.45 %
Provérbios 1.84 %
Vídeos 1.23 %

163 voto(s) até ao momento

Para poder votar é necessário estar registado no Portal da Literatura.
Registe-se

Este website contém 2796 autores e 6818 obras.