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Raízes - Ana Margarida de Carvalho


Não se pode morar nos olhos de um gato

2016-05-05

O pai fora muito avisado antes de se juntar a esta mulher, que na aldeia tomavam por aérea, quando, na verdade, era toda ela fluvial. Que nunca tinha os pés no chão, nem sequer bonita, aquele cabelo negro que descia pela testa ausente e quase se indistinguia das sobrancelhas. Chamavam-lhe louca, faziam pouco dela, quando, absorta, se detinha a olhar para coisas triviais, quotidianos banais do campo, ficava estática de puro deleite a observar o nascimento de pinto a debicar por dentro do ovo, envolvido em babas gelatinosas, ou a aflição dos galhos quando lhes dava o vento, ou um pedaço de madeira encurralado, a ir ao fundo e a regressar à superfície na teimosia insana de não se deixar naufragar, no turbilhão das quedas de água… Não era distracção, como diziam os maledicentes, era exactamente o oposto, excesso de concentração. Por isso, sustinha-se no movimento ordeiro da fila de formigas que carregavam uma cauda de lagarto ainda a retorcer-se, ou ficava parada, quase solenemente a escutar os ruídos da floresta, o coro dos pássaros, o ciciar das cigarras, os sussurros dos ventos entre as fragas, e os chocalhos das vacas que ela levava a pastar, como se assistisse à leitura do missal romano. Fazia a ligação dos sons, encontrava harmonias, entoava melodias. Imolava-se dentro de si. Deslumbrava-se com vulgaridades. Apanhavam-na a rir sozinha, ou na mais profunda consternação. E chamavam-lhe Brízida desabrida, porque andava de melenas caídas, sem cuidar de acomodar convenientemente os cabelos negros num rolo alinhado no topo da cabeça, porque costurava as roupas de forma extravagante, remendada, desleixada, indiferente aos costumes das outras moças, porque se punha de parte nos bailaricos e não sabia dançar. Tem tento, Jacinto, que ela não te serve, não é chinelo para o teu andar, e um batalhão de primas casamenteiras empurravam-no para outras moças vindas de aldeias nas redondezas, tão pobres umas quanto as outras, porém bem mais ataviadas, bem mais consentâneas com o seu caminhar, diziam as tais primas, que era o do trabalho, curvado, esforçado, sempre adiante, só interrompido pelos pedregulhos que lhe atravancavam o arado. E, ainda por cima, a moça, feia e escura, continuavam as casamenteiras, que andava só com um brinco na orelha, quase uma extravagância de pirata, a arrecada ímpar que lhe ornamentava a orelha, única herança da mãe, mulher misteriosa, que chegara à aldeia já grávida de pai desconhecido e, se se descoseu, foi por baixo, para dar à luz, nunca para revelar o procriador. Instalou-se por caridade naquele destroço de casa, abrigo do abraço de duas fragas, e a ganhar a vida a arrebanhar o gado da aldeia e a ir com as vacas para as serranias, mais altas e inacessíveis, mesmo grávida, reboluda, destemida, a amparar o seu desequilíbrio num bordão, a escalar até onde a erva era mais tenra e os lobos rondavam, de apetites acirrados. E Brízida herdara da mãe o ofício, o de levar o gado da aldeia até aos ermos remotos, e se não temia os lobos era porque o medo não lhe ocupava muito tempo e havia sempre qualquer coisa que se interpunha na sua atenção e lhe enevoava o pensamento, o recorte de uma folha que pairava ao vento, a aranha a tecer a sua trama de apanhar insectos entre duas hastes de giesta oscilante, o murmurejo das ventanias, lá na alturas, que, além de lhe fazerem frieiras nos dedos e nos cantos da boca, lhe davam recados e diziam nomes aos ouvidos penetrados por gélidas correntes de ar e calafrios. Ela tentava escutar o nome do pai desconhecido, que a mãe antes de morrer nunca lho revelara. O vento dizia-lhe palavras sem pistas, quase sempre os nomes que ela própria distribuía pelas vacas,

Rinchona, Folhareca, Tamanquinha, Molhanga, Chafariqueira, Romaria, Aquilina…

palavras graves, acentuadas na penúltima sílaba, o que para ela, uma completa analfabeta, não tinha qualquer relevância. Quase sempre era assim. Até que um dia ouviu Jacinto. Distintamente,

Jacinto…

E portanto escusavam as primas descasamenteiras de obstar à união destes dois, nesse traz-e-leva afadigado. As fragas, lá no cimo da serra, que faziam o vento assobiar já tinham ditado o nome que faltava à vida de Brízida. E além do mais, nunca foi ele que a escolheu. Ele foi escolhido. Pelo vento, para quem acredite. Por ela, que um dia o encontrou numa vereda estreita. Descia Brízida, num fim de tarde, cheia de pólenes e sementes viandantes no ar porque era Primavera, e se tocaram a meio do caminho os dois, entre os bafos quentes das vacas que atravancavam a passagem. Brízida inspeccionou-lhe as calças com a mesma curiosidade que a movia para as coisas banais e desatou-lhe os laços, desembaraçou- -se das bragas, dos culotes, daquele tumulto de panos e farpelas, e sentou-se em cima dele, na berma do caminho, só se soltavam os mugidos das vacas pacientemente irritadas com aquela espera e aglomeração, e o resto eram só zumbidos, pássaros a recolherem e os badalos doces, que Brízida distinguia de cor. As caras deles junto aos cascos das vacas, e as bostas que elas iam largando. Foi assim que fizeram o primeiro filho.

Como num presépio.

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